Do granito à casa do lince

É entre a Beira Baixa e o Alto Alentejo, junto a uma albufeira de águas calmas, rodeada de prados e ainda com a silhueta da Gardunha a rasgar o horizonte um pouco mais a norte que começa este passeio. À sua volta a festa dos sons é feita no tilintar dos chocalhados das ovelhas (cujo leite dá origem ao famoso queijo de Castelo Branco) e do bater do bico das gralhas e cegonhas que vigiam, em voos rasantes, toda a área envolvente da Barragem da Marateca.
Estamos junto à povoação de Louriçal do Campo, mesmo ao lado da nova auto-estrada da Beira Interior, também conhecida por IP2. A nossa marcha segue depois para norte até à aldeia histórica de Castelo Novo, cujo nó de acesso fica acerca de 10 km da Marateca. Vale a pena percorrer as ruas semidesertas desta aldeia, incrustada numa espécie de anfiteatro natural escavado na encosta do sul da Serra da Gardunha.

Pelourinho e torre de Castelo Novo
Destacam-se casas solarengas bem como o que ainda resta da torre do castelo que pontifica lá no alto. A qualidade de gás que brotam das entranhas da Gardunha Constitui outro motivo de atracção, sendo comum a romaria às fontes para abastecer as vasilhas do precioso líquido. A viagem continua depois pela EN18, com passagem pela vila de Alpedrinha, a partir da qual se inicia a subida para a Gardunha. Deslumbrem-se com a paisagem a sul, do lado direito de quem sobe, cuja grandeza vai aumentando à medida que vamos progredindo. Trata-se de uma planície a perder de vista, que vai desde aldeia de Vale de Prazeres até aos limites da Beira Baixa, já com a Espanha em linha do horizonte. Só por isso já valeria a pena a subida à Serra. No entanto, a surpresa maior está para vir. Mesmo no alto da Gardunha, ao virar à esquerda para iniciarmos a descida para o Fundão, ergue-se, imponente, a Serra da Estrela. Entre as duas montanhas estende-se o imenso vale da Cova da Beira. Por ali se produz muita cereja, maça, pêra, pêssego e frutos secos.

Chegados ao Fundão, a direcção é agora Penamacor. Toma-se à EN 343, passando por Valverde e Fatela, depois a EN345 até à ponte da Meimosa, para virar à direita e seguir pela EN 346. A partir daqui deixámos definitivamente o granito áspero da Gardunha e as elevadas silhuetas da Estrela, para mergulharmos numa verdura sem fim feita sobretudo de pinhal, azinha e algum eucaliptal. Lá ao longe vislumbra-se já a Serra da Malcata. À passagem por Penamacor visite o que resta do castelo, para depois prosseguir na direcção da Meimosa. Envoltos numa verdura que surpreende a cada curva, algumas centenas de metros depois viramos à direita para Meimão. É esse o caminho para chegar ao fim desta incursão beirã: a Barragem da Meimosa. A enorme mancha verde que a envolve, com mais de 16 mil hectares, do lado direito de quem está no paredão virado de frente para a albufeira, é a Reserva Natural da Malcata, o santuário de lince. Um dia destes vamos tentar seguir-lhe o rasto.

In Guia da Semana - Expresso

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