Elogio do Trás-os-Montes - um testemunho antigo!

Elogio do Trás-os-Montes - um testemunho antigo!


Talvez porque a defende uma cadeia alterosa de serras, um quase ininterrupto cordão de montanhas majestáticas, a verdade é que, de todas as regiões em que se compartimenta o nosso País, a de Trás-os-Montes e Alto Douro é certamente a menos conhecida e visitada.

O acesso é difícil; a situação extrema, com marcadas amplitudes térmicas, toma as jornadas de menos pronta realização.

E, no entanto, quanto perde o viandante ou o turista em não visitar mais amiudadas vezes esse formoso e riquíssimo recanto! A paisagem, as culturas, a população, o ambiente histórico e tradicional, a riqueza artística - tudo confere a Trás-os-Montes características especialíssimas, no conjunto português, e um lugar de destaque inconfundível na economia, na etnografia, na beleza regional portuguesa.

Paisagem, não a há mais grandiosa, com pormenores, ao mesmo tempo, de delicadeza encantadora.

A Terra Fria ou a Terra Quente, como o povo distingue as duas regiões naturais em que se pode dividir Trás-os-Montes, apresentam contrastes soberbos de pitoresco, de majestade e de beleza.

Planaltos de cerca de mil metros de altitude, com desvios de temperatura muito apreciáveis, e em que predomina, como cultura, o centeio - é a Terra Fria, onde o clima é rude, quer no inverno, quer no verão, e a esteva cobre o solo, que tufos de carvalhos, castanheiros ou freixos engalanam.

Na Terra Quente o cenário muda - e com ele o clima, que é moderado no inverno, com poucas chuvas, mas tórrido no verão.

São os vales que afluem ao Douro, com um revestimento vegetal de feição mediterrânea: sobreiros, olivais, figueiras, amendoeiras, laranjeiras.

E, acima de tudo, as vinhas, a prodigiosa obra da natureza e do homem que são os socalcos sobre o rio, donde se extrai o maravilhoso néctar que todo o mundo conhece.

Etnograficamente, no capítulo das usanças e das tradições, não há província que mantenha a pureza dos seus costumes como esta, o que se explica talvez pela insularidade geográfica que a serrania lhe criou.

Gente hospitaleira, amiga de receber e de obsequiar com franqueza, outra não há, talvez, em Portugal. Independente, é certo, ciosa do que é seu e lhe pertence: - Para cá do Marão, mandam os que cá estão!

Mas portuguesa de lei, mergulhando as raízes do seu patriotismo nas recordações mais afastadas da nossa História. Nos grandes lances da Nação, sempre Trás-os-Montes escreveu uma página de glória. A sombra heroica dos Sepúlvedas, entre tantos heróis antigos, vela ainda pela pureza de intenções cívicas dos destemidos transmontanos.

Elogio de Trás-os-Montes (Desenho de B. Marques)
Desenho de B. Marques

Como relicário de coisas de arte, Trás-os-Montes tem muito que ver e admirar. Da Domus Municipalis de Bragança à Sé de Miranda, de tantas igrejas, castelos e palácios aos simples pelourinhos, como o de Outeiro - quantas maravilhas, sugestivas de beleza, quantos monumentos, evocadores do passado!

A indumentária tradicional da população mantem-se ainda em muitos pontos. A de Miranda constitui uma curiosidade que, com as suas típicas danças de pauliteiros, extravasou já para o cenário internacional.

Todos se recordam daquela página de Ramalho em que o grande escritor louva a confiança com que o transmontano recebe os hóspedes.

Assim, quando, geralmente, ao bater-se à porta, em qualquer província, se é assediado de perguntas, em Trás-os-Montes ouve-se apenas: - Entre quem é. Eis um traço que define o carácter da gente, e que Ramalho fez bem em vincar na sua prosa admirável.

 A literatura, aliás, tem aproveitado a terra e a população da província para fixar tipos e aspetos que entraram na grande arte portuguesa, das novelas de Camilo às poesias ele Junqueiro.

É que, na verdade, bem o merecem Trás-os-Montes e os transmontanos.

O homem é ali digno da paisagem, do ambiente histórico, da riqueza do solo e do subsolo (minas metalíferas e nascentes hidrológicas são às dezenas), da austeridade e grandeza daquelas serras benditas, parentes muito chegadas das que Jacinto louvou com a ternura de quem descobria a sua Pátria esquecida . . .

Dr. Rodrigues Cavalheiro | Desenho de B. Marques

in "Panorama" - Revista Portuguesa de Arte e Turismo, nº 31 - 1947


https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/Panorama/N31/N31_master/Panorama_N31_1947.PDF 

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